“O Ser real é constituído de corpo, mente e espírito. Dessa forma, uma abordagem psicológica para ser verdadeiramente eficaz deve ter uma visão holística do ser, tratando de seu corpo (físico e periespirítico), de sua mente (consciente, inconsciente e subconsciente) e de seu espírito imortal que traz consigo uma bagagem de experiências anteriores à presente existência e está caminhando para a perfeição Divina.” Joanna de Ângelis

FELICIDADE

Pelo Espírito Carlos Torres Pastorino, no livro "Imper manência e Imortalidade" psicografado por Divaldo Franco.

Desafiadora meta que deve ser alcançada pelo ser inteligente, a felicidade é fugidia, complexa e diferente de um para outro indivíduo, apresentando-se em um mosaico psicológico de variações que surpreendem. 

Sócrates e Platão, que consideravam a alma imortal e o renascimento como fenômeno natural da vida, propunham a felicidade como decorrência do culto ao dever, ao belo e à Filosofia.

A felicidade para o bruto não corresponde ao anelo de uma pessoa sensível e nobre, da mesma forma que, para Nero, constituía-se de elementos destrutivos e bárbaros enquanto que para Marco Aurélio, embora guerreiro, tinha um sentido estóico.

Epicteto, ex-escravo de Epafródito, o liberto, embora coxo e destituído de qualquer beleza, tornou-se mestre de Marco Aurélio, fruindo a felicidade com características muito diversas daquelas que celebrizaram Petrônio, o arbiter elegantiarum, por exemplo, que foi induzido ao suicídio por Nero, que o invejava...

Com o Cristianismo, o conceito de felicidade experimentou uma proposta especial, apresentando-se como o esforço que se deve empreender a fim de conquistar-se o Reino dos Céus, celebrizando o sacrifício, a renúncia, a abnegação, o amor, como indispensáveis para consegui-lo.

À medida que surgiram os grandes pensadores do Cristianismo primitivo, dando início à Patrística, a visão da felicidade experimentou profundas mudanças, tendo-se em vista o conceito de cada um, desaguando sempre na conquista do Paraíso além da disjunção corporal, no mundo espiritual, onde seria sem jaça e intérmina...

De Santo Agostinho a Santo Tomás de Aquino, os conceitos em torno da felicidade sofreram pouca alteração dentro dos postulados cristãos. Entre os ascetas e autoflagelados, os místicos e extáticos, como São João da Cruz, Santa Teresa d´Ávila, São Pedro de Alcântara, a felicidade apoiava-se na renúncia e no desprezo total do mundo, como o fito de lograr-se o Reino dos Céus...

Foi, mais tarde, com o advento do Racionalismo, a nova religião que se impôs à cultura e ao comportamento, que se estabeleceu ser a felicidade uma defluência física para o prazer, no qual a vida adquire sentido. Através da análise objetiva e intelectiva das coisas e dos acontecimentos, a experiência da satisfação dos sentidos tem alto significado, constituindo motivo de aspiração e de luta pelo conquistar.

De alguma forma, tratava-se de um retorno ao hedonismo de Aristipo de Cirene e dos seus seguidores que, no prazer situavam a razão da própria existência, já que, na transitoriedade da vida física, sempre muito rápida, é necessário fruir ao máximo das oportunidades, propiciando-se gozos incessantes, sejam do estômago, do sexo, do repouso, da posição social, da posse de valores amoedados, nos quais o ego realize-se plenamente.

Lamentável que tal anelo encontre as barreiras dos limites orgânicos e emocionais, nas suas sucessivas transformações, bem como as derivadas dos impositivos civilizatórios que exigem o cumprimento de muitos deveres que, não raro, impõem sacrifício, sofrimento e labor continuado.

Quase simultaneamente o Iluminismo programou dias de ventura intérmina para a criatura humana e a sociedade do futuro, oferecendo conceitos de felicidade em torno dos valores morais e culturais que deveriam constituir objetivos existenciais.

Rousseau, por sua vez, afastando-se dos iluministas, propôs o retorno à Natureza como sendo a única maneira de poder-se ser feliz, à simplicidade, ao estado natural, numa tentativa de renegar todas as conquistas do vigente conhecimento, como se os povos primitivos, ou aqueles que ainda se encontram em estágio primário da evolução hajam logrado a felicidade real. A indiferença ao conforto, à conquista do discernimento, à falta dos requisitos básicos de higiene e de preservação da vida física, não constituem, sem dúvida, felicidade, mas primarismo na escala da evolução.

Seria de pensar-se em como o hotentote, na sua condição pastoril contemplaria o labor ao solo, as conquistas da Tecnologia, as bênçãos da experiência cultural!

Normalmente, aqueles que se encontram em estágio de natura, quando se deparam com a civilização adotam-na até onde lhes é possível, desta forma alterando os hábitos e comportamentos, na busca de experiência diferente de felicidade, o que demonstra não estarem satisfeitos com aquela de que dispõem.

Certamente, a aculturação, em alguns casos, tem sido mais prejudicial do que útil, em face dos contributos perversos de alguns indivíduos e dos seus processos de educação, gerando sofrimentos naqueles a quem é imposta e estimulando-os a vícios que degeneram, infelicitando comunidades inteiras que viviam em melhor situação de paz, embora desconhecendo os padrões de conforto da civilização. Ao mesmo tempo, porém, essa mudança oferece recursos inestimáveis para a saúde, para o conhecimento, para a vivência de valores éticos e de condutas harmônicas também em relação à Natureza.

Como conseqüência dessa visão mais clara e atual, dir-se-á depois que é melhor ser um Sócrates inquieto que um suíno satisfeito, um esteta ansioso que um aborígene contente...

A euforia do Iluminismo ensejou uma grande contribuição literária e uma visão enriquecida de possibilidades em torno de como o homem, a mulher e a sociedade podem realmente ser felizes.

Condorcet afirmava, no seu célebre Sketch, que a bondade moral do homem (...) é suscetível de um aprimoramento ilimitado e que a natureza vincula estreitamente, numa corrente indissolúvel, a verdade, a felicidade e a virtude. Embora denominando-se ateu, o seu conceito de felicidade tem como suporte a verdade e a virtude, ao mesmo tempo em que lamentava as terríveis diferenças sociais, propunha a paz internacional que seria conseguida mediante condutas de justiça, um saudável comportamento de comércio livre, o surgimento de uma língua universal que juntos se encarregariam de mudar a paisagem dos sofrimentos humanos.

De certo modo, o nascimento de Esperanto, graças a Zamenhof, o surgimento da União Européia, prenunciando um comércio livre, pelo menos entre os seus membros, vêm contribuindo para  a fraternidade. Assim mesmo, as diferenças culturais e históricas, preservadoras do egoísmo nacional de cada povo, lutam para manter-se distantes umas das outras, apesar das situações calamitosas. De igual maneira, as lutas de classes, as guerras intestinas ou não, vêm demonstrando a impossibilidade para alcançar-se esse paraíso iluminista, pelo menos nos moldes em que foi apresentado.

Afiançando a necessidade de construir-se o futuro, os iluministas laboravam com um ardor quase religioso, embora a sua descrença em Deus e na vida espiritual.

Essa necessidade de renunciar ao presente, a fim de que o porvir se fizesse engrandecido e pleno, está em Kant, aspirando que as gerações porvindouras deveriam experimentar a felicidade, embora a renúncia dos seus programadores, que deveriam trabalhar afanosamente, sem qualquer intenção de desfrutar dos seus resultados positivos. 

Ocorre que a felicidade não pode ficar adstrita apenas à sua face objetiva, à exterior, àquela que fere os sentidos, que contribui com a compensação do prazer sensorial. Há um subjetivismo de muito maior efeito, que são as alegrias internas da consciência de paz, dos deveres retamente cumpridos, das satisfações que decorrem dos ideais abraçados, dos objetivos que são mantidos conquanto defrontem lutas acerbas.

O importante é constatar-se como se sente cada um ante a vida e não quanto possui e frui da vida. O bem-estar subjetivoé fundamental à construção da felicidade do indivíduo e do grupo social onde se movimenta.

Nesse sentido, não se deve considerar a felicidade como sendo uma linha reta de emoções contínuas no mesmo padrão, na mesma forma de expressar-se, porquanto, expressa-se em pequenas maneiras de existir, na transitoriedade de cada acontecimento, gerando uma melodia de alegrias que, não obstante com pausas, tem uma continuidade, uma significação, às vezes com pontos máximos e mínimos, num todo harmonioso, gerando diferença entre estar feliz ser feliz. 

Os iluministas sonharam que o domínio da natureza, a perfectibilidade humana e o governo racional, mudariam a Terra e os seus habitantes.

Um ideal esse, sem dúvida, extraordinário, mas impossível por enquanto, considerando-se o estágio de evolução da criatura terrena, que oscila entre o ser primitivo e o gentleman, o bárbaro e o civilizado, o agressivo e o educado...

Desta forma, nem a abominação contra o sofrimento em favor do gozo, nem a eleição daquele em detrimento deste.

Os estóicos, a partir de Zenão de Cício, Cleanto, Crisipo e os seus continuadores, estabeleceram que a felicidade se encontrava na observância dos rígidos princípios morais e de superação do sofrimento, mediante o desprezo pelos gozos materiais, de forma que a harmonia interior se exteriorizasse em júbilo real, dando resistência para os enfrentamentos que desgastam, as enfermidades que debilitam, as dores que enfraquecem o indivíduo.

A busca, pois, da superação do sofrimento tem sido objetivo de preocupação constante na Filosofia, na Psicologia, na Sociologia desde os dias já longínquos do esoterismo oriental, na Índia, na China, no Egito, na Grécia, até as buscas atuais nas Obras de auto-ajuda, nos recursos da meditação transcendental, nos exercícios de concentração, nos métodos chineses e japoneses de reflexão e equilíbrio interno para fugir-se do estresse, da ansiedade, da depressão...

Sucede, no entanto, que a felicidade, por mais seja anelada, é sempre relativa enquanto se transita na Terra.

Estando o ser humano sujeito aos impositivos orgânicos, sociais e governamentais, mergulhado profundamente no conjunto do grupo familiar, há todo um conjunto de fenômenos e de ameaças ao que denomina como felicidade, que lhe escapa ao controle pessoal.

Somente uma visão espiritualista e, por ideal, espiritista, oferece os meios hábeis para o encontro da felicidade, através da vivência dos postulados cristãos em clima de alegria e de libertação de preconceitos amargos e perversos, de ralizações dignificadoras e de solidariedade, trabalhando o íntimo e os relacionamentos externos, de forma que se torne a existência laboriosa e rica de paz, ensejando contentamento e esperança de plenificação enquanto no mundo mesmo.

Mediante essa compreensão da lei de causa e efeito moral, assume-se a responsabilidade do dever de ser hoje melhor do que ontem, aceitando-se sem revolta as ocorrências perturbadoras na saúde, no bem estar socioeconômico, familiar, trabalhando, porém, infatigavelmente, quanto lhe permitam as forças, a fim de mudar-se a paisagem por onde se deambula. Se negativa, como efeito das ações pretéritas infelizes, utilizando-se de todo esforço para reparar danos e (re)construir situações favoráveis. Se positiva, ampliando a área de labores que geram bênçãos para todos, por consequência, mantendo as próprias conquistas e tornando-as mais relevantes. Contudo, os desafios serão sempre oportunidades para novas realizações, ensejos de crescimento e de edificação que nunca cessarão.

A felicidade, portanto, consistirá sempre no bem-estar que se pode conseguir subjetivamente em decorrência da vitória sobre si mesmo e objetivamente criando situações de harmonia, de progresso, de conforto, de saúde e de alegria de viver.

Por fim, consequindo-se experienciar com frequência o lapidar conceito inscrito no pórtico do Templo de Apolo, em Delfos, Gnôthi seauton, que Sócrates conduziu a Atenas introduzindo-o em sua proposta filosófica. O Conhece-te a ti mesmo é ainda a chave que pode elucidar o enigma da felicidade, conforme o Espírito Santo Agostinho bem explicou em adendo à resposta que os Espíritos deram à pergunta formulada por Allan Kardec, de número 919, em O Livro dos Espíritos

2 comentários:

  1. Querida Michelle.Gosto muito de seu blog.Estou cursando o quarto período de Psicologia (apesar de ser Farmacêutica)e auxilio no Lar de Frei Luiz (RJ) como voluntária e também em uma reunião de Estudo e Tratamento de Compulsões, juntamente com um Psiquiatra (Dr.Luiz Otávio) e uma Pedagoda (Graça).Estou recomendando seu blog para os participantes (ex adictos e/ou familiares)e desejo que Jesus abençôe seu trabalho.
    Um abraço fraterno.Semíramis Reis.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada pelo carinho! É uma alegria saber que mais gente está aproveitando material que a mim vem auxiliando tanto! Paz e Luz!

    ResponderExcluir